Inovação é o motor das empresas; a venda é o combustível, diz Luiza Trajano
Para presidente do Conselho do Magazine Luiza e do Grupo Mulheres do Brasil, quem não inova fica para trás.
A cada quatro anos, a Copa do Mundo transforma milhões de pessoas em especialistas da noite para o dia. Todo mundo tem uma escalação ideal, uma opinião sobre o técnico, uma aposta para o campeão e uma convicção inabalável sobre quem vai decidir o torneio. O favoritismo parece evidente até a bola começar a rolar. Curiosamente, o mundo dos negócios desperta um comportamento muito parecido.
Basta surgir uma nova tecnologia, um setor em crescimento ou um modelo de negócio promissor para que apareçam previsões sobre quais empresas vão dominar o mercado, quais empreendedores serão os próximos grandes cases de sucesso e quais tendências vieram para ficar. Multiplicam-se análises, palpites e certezas. Assim como na Copa, parece que sempre existe um favorito, mas quem empreende sabe que a realidade é bem diferente.
Construir uma empresa nunca foi um exercício de adivinhar o futuro. É um processo contínuo de adaptação, leitura de cenário e tomada de decisão. O melhor plano de negócios pode precisar ser revisado porque o mercado, o comportamento do consumidor e a economia mudam. E, muitas vezes, vence não quem começou como favorito, mas quem conseguiu se reinventar ao longo do caminho.
A história das Copas está repleta de seleções favoritas que ficaram pelo caminho e de equipes que surpreenderam o mundo. O futebol é imprevisível porque é feito de estratégia, preparo, adaptação e, claro, de fatores que ninguém consegue controlar completamente. Nos negócios, a lógica é muito parecida.
Empresas consolidadas podem perder relevância, negócios pouco conhecidos podem se tornar protagonistas e setores considerados promissores podem decepcionar, enquanto oportunidades discretas acabam construindo histórias extraordinárias. O consenso nem sempre aponta para o melhor resultado. Essa mesma lógica acompanha quem investe.
Talvez porque, como seres humanos, gostamos da sensação de controle. Procuramos informações que confirmem aquilo em que já acreditamos, damos mais peso às opiniões que reforçam nossas convicções e ignoramos sinais que desafiam nossa visão inicial. É um comportamento conhecido pela psicologia como viés de confirmação, e ele aparece tanto nas arquibancadas quanto nas salas de reunião, nas decisões de negócios e nas carteiras de investimento.
O torcedor dificilmente muda de lado durante um campeonato. Ele defende seu time mesmo diante de resultados ruins, acredita que “agora vai” e encontra explicações para justificar cada derrota. No mercado, esse comportamento pode custar caro.
Quantos investidores permanecem presos a um ativo simplesmente porque já investiram nele? Quantos empreendedores insistem em uma estratégia apenas porque já dedicaram tempo e recursos a ela? Quantos confundem convicção com teimosia?
Tomar boas decisões exige exatamente o contrário: capacidade de revisar hipóteses, reconhecer erros e adaptar a estratégia sempre que os fatos mudam. Talvez seja por isso que uma das melhores analogias entre futebol e negócios esteja menos na figura do torcedor e mais na do técnico.
Antes de uma Copa, um bom técnico não escolhe apenas os jogadores mais famosos, mas procura montar um elenco equilibrado. Avalia diferentes características, pensa em alternativas para cenários inesperados, considera o desgaste físico, analisa adversários e sabe que um campeonato não é decidido apenas pelos onze titulares.
Empresas também não são construídas apenas por grandes ideias. Elas crescem quando existe estratégia, diversidade de competências, planejamento e capacidade de execução. O mesmo vale para uma carteira de investimentos. Diversificação, gestão de risco e visão de longo prazo costumam ser muito mais importantes do que apostar todas as fichas no ativo ou no setor que está em evidência. Afinal, o objetivo não é acertar um único lance brilhante, mas construir uma estratégia capaz de atravessar diferentes ciclos.
Essa talvez seja uma das maiores lições que a Copa pode oferecer para empresários e investidores: nem sempre vence quem reúne os maiores talentos individuais. Muitas vezes, vence quem executa melhor o plano.
Como empresária e investidora, aprendi que os negócios mais promissores nem sempre são os que fazem mais barulho. Da mesma forma, as empresas mais valiosas não são necessariamente aquelas que ocupam mais espaço nas manchetes ou nas redes sociais. Grandes resultados costumam nascer de consistência, disciplina e capacidade de adaptação, características que raramente aparecem em um ranking de favoritos.
Há ainda outra semelhança interessante entre o futebol e o mundo dos negócios: ambos despertam emoções intensas. Vibramos com uma vitória, nos frustramos com uma derrota, criamos expectativas e, às vezes, deixamos que elas conduzam nossas decisões. A emoção, por si só, não é o problema. Ela faz parte da experiência humana. O risco começa quando ela substitui a estratégia.
Na arquibancada, isso faz parte do espetáculo. Nos negócios e nos investimentos, pode comprometer anos de construção de valor. Enquanto assistimos a mais uma Copa, vale observar como reagimos aos palpites, às zebras e às surpresas que inevitavelmente surgirão ao longo do torneio. Talvez esse exercício diga menos sobre futebol do que imaginamos e muito mais sobre a forma como lideramos empresas, fazemos escolhas e construímos patrimônio.
A Copa nos convida a torcer. O empreendedorismo e os investimentos nos convidam a decidir. Confundir uma coisa com a outra talvez seja um dos erros mais comuns e mais caros que um empresário ou investidor pode cometer.
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