Acabo de voltar de um bate papo com adolescentes do sexo masculino sobre futebol. A ideia era falarmos de Copa, mas demorou menos de 15 minutos para que o assunto passasse a ser Neymar. Queriam saber por que eu criticava Neymar sendo ele um gênio, um craque, um ídolo. Tentei contextualizar o craque, o homem, o ídolo e falar de Neymar dentro de campo, fora de campo; falar do Neymar atual: fora de forma e dentro dos convocados. Para cada argumento eles tinham uma resposta: Neymar, em 15 minutos contra a Escócia, criou mais chances de gol do que Bellingham na Copa até aqui. Eu não tinha esse dado e, por isso, não havia como contestar. Tentei oferecer outros dados, já que parecia que eles gostavam dos números. Mas tudo o que eu dizia era recebido como se eu estivesse assassinando a facadas um filhote de labrador.
Eu estava dialogando com meninos de 15, 16 anos. São meninos que viram esse Neymar genial pouco em campo e muito no Youtube. Viram lances, viram fragmentos, viram vídeos de dois minutos. E viram, claro, o Neymar do vídeo-game. Não há, diante dessas referências, argumentos possíveis que possam contextualizar Neymar.
Neymar não é um jogador; é um conceito. Um conceito a respeito do que é ser homem nessa sociedade. Bilionário, cheio de mulheres consideradas lindas a sua volta, pai de crianças com as quais aparece em vídeos muito fofos, empresário extremamente bem sucedido, craque. É a matriz do macho alfa.
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Meninos adolescentes começam essa complexa jornada rumo à vida adulta sendo colocados em contato com a fraternidade que é ponto central da masculinidade. Rita Segato, antropóloga argentina que estuda masculinidade há anos, ensina que o valor da lealdade entre os homens é o valor básico da masculinidade. É essa lealdade que os adolescentes oferecem a Neymar.
"Não há nada mais importante para um homem do que outro homem", diz Segato lembrando que a masculinidade é hierárquica e funciona através de uma estrutura corporativa. Existe o alfa e existem os demais que operam na veneração ao alfa.
A reação dos meninos a Neymar confirma a tese. Neymar é a ideia mesma do que é ser homem. Ele reúne todas as características admiráveis para a masculinidade. Dizer que ele está fora de ritmo e que há três anos não entrega competitividade é ofender profundamente os valores mais fundamentais desses jovens; é matar o sagrado, é profanador, é uma blasfêmia.
É sobre esses pilares que Neymar ergue seu império. Ele está num Olimpo particular. Bastam 15 minutos de Neymar para ofuscar Vini e qualquer outro que ouse tirar do craque o protagonismo. Neymar não é apenas um ídolo. Ele é símbolo de uma masculinidade que luta para sobreviver.
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