Corria o primeiro tempo do jogo contra o Marrocos, e a seleção brasileira controlou melhor as ações a partir da mudança de sistema: um 4-3-3, com Raphinha passando para a ponta direita. No dia seguinte, Curaçao viveu um momento mágico contra a Alemanha ao marcar um gol e criar dois contragolpes. Mas logo os favoritos retomaram a rédea e construíram uma goleada. Já a Noruega, em dificuldades contra o Iraque, moveu Sorloth para a ponta direita com o primeiro tempo em andamento, e encontrou o primeiro gol.
Seria possível citar a Croácia, que mudou sua forma de pressionar a Inglaterra no primeiro tempo, exigindo novos ajustes ingleses no intervalo. Ou da Suécia passando de uma linha de cinco defensores para uma com quatro contra a Holanda, equilibrando ações antes de ser goleada.
É normal jogos de futebol terem pontos de virada, e não necessariamente por mudanças táticas. Mas o que une todos os exemplos acima é o fato de que as mudanças foram traçadas pelos técnicos durante a parada para a hidratação, que, se mantida após o Mundial, pode se tornar mais uma grande revolução.
Como ocorre com quase toda novidade, logo pareceu obrigatório que todo mundo se posicionasse, contra ou a favor. E, antes de tudo, é importante excluir do debate as partidas disputadas sob calor extremo, em condições que, segundo a ciência, parar não é escolha, mas preservação da saúde dos atletas.
A Copa do Mundo, no entanto, tornou as duas paradas uma norma e fez do futebol um jogo disputado não mais em dois tempos, mas em “quatro quartos”. E debater o assunto impõe reconhecer o tamanho da transformação. O impacto é maior do que se imagina.
A essência do futebol é seu ritmo. Um time submetido a seguidos ataques, dominado, acuado, lida com imenso desgaste físico e emocional. Interromper esse fluxo é interferir demais numa partida. Além disso, amplia-se o poder do treinador de intervir numa partida, ou mesmo o planejamento dela. Antes da Copa, sabendo da inovação, a comissão técnica brasileira ensaiou formas de otimizar o tempo de hidratação dos jogadores de forma a ampliar e período de conversa entre Ancelotti e o elenco.
Mudanças, por definição, não são ruins. Pode-se concluir que o futebol será melhor com quatro quartos de 22 a 23 minutos, com mais nuances e guinadas táticas. Mas o modelo parece ter sido introduzido na Copa de forma dissimulada: o verão americano imporia a reidratação em alguns jogos, então, para igualar as condições, a decisão foi estender as interrupções até para estádios cobertos e climatizados, talvez pela oportunidade comercial que se criava. E o que se tem é uma parada técnica, não uma parada de hidratação.
Por ser algo tão transformador, o tema deveria ter sido alvo de um debate maior na comunidade do futebol, incluindo atletas e técnicos. O público, em muitos jogos, tem vaiado as paralisações que, curiosamente, chegam num momento em que o futebol tenta combater o jogo picotado, parado frequentemente pela cera e pelo antijogo. Parece paradoxal.
É preciso estar aberto a mudanças. Por ora, o problema talvez seja introduzir algo drástico com um debate ainda imaturo