O futebol e o calendário às vezes reservam surpresas: 32 anos depois de um dos maiores traumas da história do esporte argentino, Lionel Messi se reencontrará simbolicamente com Diego Maradona em Dallas, a cidade onde tudo desmoronou.
A partida desta noite de sábado contra a Jordânia tem pouca importância, pois a Argentina já garantiu a liderança do grupo; nada mudará nesse sentido.
Mas é interessante do ponto de vista histórico: em 27 de junho de 1994, em Dallas, a Fifa anunciou o resultado positivo de doping de Maradona. "Cortaram minhas pernas", diria o argentino, cujo colapso levou à ruína uma seleção que ameaçava conquistar a Copa do Mundo e acabou sendo eliminada nas oitavas de final.
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O contraste entre esses dois momentos não poderia ser maior: aquele dia, com Maradona como figura central, foi um dos piores — talvez o pior — da história da seleção argentina. Estes dias, com Messi como figura central, são dos mais tranquilos e serenos da história da equipe.
Messi superou Maradona, reconhece ao UOL Mariano Israelit, um dos melhores amigos do campeão mundial no México-86: "Digo isso com pesar. Messi, ao se tornar campeão, ofuscou um pouco a figura de Diego".
Será que hoje os argentinos são muito mais "messianos" do que "maradonianos"?
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"Hoje posso dizer que sim. Infelizmente", admite Israelit, autor de um livro intitulado "O amigo de Deus", no qual relata sua vida ao lado do maior ídolo que o Napoli já teve.
"Mas veja bem, tenho um enorme respeito por Messi; acho impecável o que ele fez. É um jogador excepcional, no mesmo nível de Maradona".
Uma grande conquista de Messi foi convencer seus compatriotas de que ele deveria ser Messi, e não Maradona. Aos 39 anos, o capitão da Argentina conta também com a ajuda do passar do tempo: as novas gerações têm na memória seus gols e suas façanhas, enquanto as de Maradona pertencem principalmente às gerações anteriores, assim como, em sua época, as de Alfredo Di Stefano.
Qualquer argentino que rever aquelas horas do teste de doping em Maradona, em 25 de junho, após a vitória por 2 a 1 sobre a Nigéria, e o resultado positivo, dois dias depois, sente o coração se apertar.
"Eu estava lá", lembrou ao autor desta coluna Harold Mayne-Nicholls, que mais tarde se tornaria presidente da Federação Chilena de Futebol, mas que naquela Copa do Mundo era o chefe de imprensa da sede em Boston.
Mayne-Nicholls havia estabelecido um bom relacionamento com Maradona e com a delegação argentina. A imagem memorável em que uma enfermeira loira leva o astro argentino pelo braço esconde outra história.
"Rapaz! E essa garota [mulher]?", perguntou Maradona a Mayne-Nicholls. O astro achava que a havia seduzido.
"Diego, você precisa ir para o controle antidoping", respondeu Mayne-Nicholls, trazendo-o de volta à realidade.
Sue Carpenter, a enfermeira, era divorciada de um argentino. Em pouco tempo, todo o país a conheceria.
Pouco depois, Maradona encontrou-se com Julio Grondona, presidente da Associação Argentina de Futebol (AFA).
"Jogaram muito bem, mas em determinado momento os negros ficaram durões", disse Grondona sobre os nigerianos.
"Eles têm um par de rapazes que eu adoraria ter no meu time", respondeu Maradona