Andréa Fidelis convida para uma conversa sobre futebol, disparidade de salários e regras invisíveis que as mulheres enfrentam do campo ao escritório

Dessa vez, deixa o café de lado, pega uma cerveja bem gelada, porque hoje nós vamos falar de futebol. Sim! Nós mulheres metendo a colher no assunto dos ”homens”. Prepara porque vem polêmica. Para começarmos, eu te faço a pergunta que costuma dividir mesas de bar: quem é o melhor jogador do Brasil, Marta ou Neymar?

Vamos usar a lógica das empresas para fazer essa comparação. Se analisarmos os indicadores de desempenho mais frios — os famosos KPIs que o mundo corporativo tanto valoriza —, os dados nos dão uma resposta impressionante. Marta é a maior artilheira da história das Copas do Mundo, com 17 gols, superando atletas como Miroslav Klose (16), Messi (16), Cristiano Ronaldo (8) e o próprio Pelé (12). E o Neymar, quantos gols fez em Copa do Mundo? Eu te digo: somente 8.

No topo do reconhecimento individual, Marta recebeu o prêmio de Melhor Jogadora do Mundo pela Fifa por seis vezes (mais que qualquer brasileiro, como Ronaldo Fenômeno, com 3, e Ronaldinho Gaúcho, com 2). E o Neymar? Nenhum! Apesar de ele ter ficado algumas vezes em 3º e 4º lugar no ranking da Fifa.

Alguns críticos de plantão já vão sair dizendo que o futebol masculino é mais competitivo que o feminino, por isso Neymar “sofreu” essa falta de prêmios. Mas, me segue aqui na comparação.

Vamos falar de salários! Quando comparamos os dois salários que são da mesma função, ou seja, jogador de futebol profissional da seleção brasileira, reconhecido internacionalmente e com prêmios, a disparidade é brutal. Estima-se que o teto salarial anual de Marta, ao longo da carreira, tenha girado em torno de 400 mil dólares, enquanto os vencimentos anuais de Neymar na Arábia Saudita alcançam a casa dos 160 milhões de euros.

É evidente e compreensível que o futebol feminino atual não movimenta o mesmo volume financeiro que o masculino. Há uma lógica de mercado clara sobre o retorno de investimento. No entanto, como sou cientista do comportamento e da sociedade, te convido a dar um passo atrás e olhar para as variáveis que criaram essa disparidade histórica.

O primeiro dado quantitativo que impacta esses números é o tempo de exposição. Pesquisas de monitoramento de mídia mostram que o futebol feminino historicamente recebe menos de 10% do espaço de cobertura televisiva e jornalística dedicado à modalidade masculina.

É um ecossistema complexo: a falta de visibilidade limita o interesse do público, e a falta de patrocínio justifica a ausência na grade de programação.

Além disso, há um factor institucional que atrasou essa corrida. No Brasil, o Decreto-Lei 3.199, assinado em 1941, proibiu formalmente as mulheres de praticarem o futebol por considerá-lo incompatível com a "natureza feminina". Essa proibição perdurou por 38 anos, sendo revogada apenas em 1979.

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Portanto, enquanto o futebol masculino estruturava sua indústria bilionária há mais de um século, as mulheres operam profissionalmente há poucas décadas. Elas entraram na corrida com a pista já ocupada.

Essa assimetria é observada até mesmo nos cargos de alta liderança no próprio futebol feminino: os homens ainda ocupam cerca de 85% dos cargos de comando nas comissões técnicas das equipes no Brasileirão desta modalidade, utilizando a lógica masculina de jogar, treinar e cobrar, mas não a mesma lógica de promover e remunerar.

Ainda temos mais um dado profundo e invisível que reside na ciência. Estudos na área de medicina desportiva indicam que as jogadoras têm até cinco vezes mais chances de sofrer lesões graves no ligamento cruzado anterior (LCA) do que os homens. Historicamente, essa estatística foi atribuída a uma suposta fragilidade física feminina.

Hoje, a ciência nos mostra a verdade: quase 100% dos equipamentos de proteção, ou seja, as chuteiras e os protocolos de treino, foram desenvolvidos utilizando exclusivamente o corpo e a biomecânica masculina como padrão universal. As mulheres jogam com calçados projetados para pés masculinos e dinâmicas de impacto que ignoram a anatomia da curvatura do pé e a bacia feminina, sem falar das características de massa muscular e estrutura física, que são diferentes.

Isso mostra para nós, mulheres, que somos obrigadas a performar em um mundo que nos força a usar moldes que não são nossos.

E agora eu não estou falando só de futebol! Quando transportamos esses dados para o ambiente corporativo tradicional, a metáfora se encaixa perfeitamente. Embora as mulheres representem a maioria da população com ensino superior completo e pós-graduação no Brasil, sendo as mais bem preparadas no mundo do trabalho, as pesquisas do IBGE apontam que a diferença salarial menor para as mulheres persiste em cerca de 20%, mesmo para cargos e funções idênticas