Toda escola, ao lado dos conhecimentos específicos de idioma, matemática, história, geografia e outras disciplinas, trabalha também com um recorte da cultura geral da comunidade em que se insere, apropriando-se dela, reproduzindo-a, transformando-a, transmitindo-a, e entre os temas abordados, com certeza a cultura corporal do movimento, de forma autônoma e significativa, é abordada ao longo de toda a formação do jovem e da criança.
As manifestações como dança, artes, ginástica, que podem ser exercidas também em ambientes não-escolares, juntamente com os componentes curriculares, propiciam ao aluno o exercício da cidadania.
Entretanto, existe inegavelmente uma preferência juvenil pelo futebol, esporte nacional brasileiro desde que foi trazido pelos ingleses no início do século passado. Este jogo foi inicialmente voltado às classes mais abastadas, bastando lembrar que grandes clubes barravam jogadores negros, porém não tardou a cair no gosto popular.
Uma bola – mesmo que de trapos -, um campinho e algumas demarcações do que seria o “gol” bastavam para que jogos acontecessem, o que facilitou para que toda a comunidade se apaixonasse por esta atividade.
Por isso, um dos grandes acontecimentos aguardados por todo o país seria a vitória na copa do mundo de 1950, jogada no Brasil, bastava derrotar o Uruguai na final. Como todos sabemos, infelizmente isso não aconteceu, lançando os brasileiros em uma depressão total. A esperança de redenção na copa de 1954 também não se concretizou. Daí um sentimento de que jogadores brasileiros não teriam coragem de enfrentar os estrangeiros, o que o escritor e comentarista esportivo Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-latas”, algo que permearia a consciência coletiva além do próprio futebol, seria a verdadeira expressão de uma humildade descabida e vergonhosa.
Nelson afirmava que futebol, e por extensão a vida, não é um jogo gentil, os jogadores ingleses por exemplo, representantes de uma nação que se propunha aristocrática e respeitadora de regras, eram os mais violentos, um mundo em que a autoconfiança e a imodéstia definem a vitória. Segundo ele a seleção era mais do que mero representante do futebol nacional, era a própria pátria de chuteiras, título inclusive de um seu livro de crônicas.
Em 1958 a vitória finalmente veio, levantando o espírito do país inteiro, basta lembrar um trecho de música da época: “eta esquadrão de ouro / com brasileiro não há quem possa…”
Isso pareceu se confirmar com a copa de 1962, mas não se repetiu em 1966.
Em 1970 a seleção estava a cargo de um técnico que teve a ousadia de afirmar que seus jogadores eram todos “feras”, algo inusitado na época; quando João Saldanha não aceitou palpites do ditador de turno, foi substituído por Zagallo que definiu as feras como “formiguinhas”, mas não alterou a composição básica do time. Ganhamos a copa, o tricampeonato nos deu a posse definitiva da taça Jules Rimet que, num evento até hoje não bem explicado, foi roubada e derretida.
Eram tempos tenebrosos, de censura, torturas e lutas armadas, o governo militar havia se apropriado da bandeira nacional como seu símbolo e não mais do país, e havia um movimento não bem-sucedido para que não se torcesse pela seleção. A explosão de alegria pela vitória restituiu nossa bandeira para todos, hasteada, exposta, respeitada de fato. O hino informal da seleção dizia: “noventa milhões em ação / prá frente Brasil do meu coração / salve a seleção…”
Hoje, mais de cinquenta anos depois daqueles eventos, tendo ganhado mais Copas e perdido algumas, jogaremos pelo hexacampeonato, talvez merecido dada a qualidade de nossos jogadores; mas como anteriormente, saímos de um tempo em que grupos políticos se arvoram em proprietários de um símbolo nacional.
A pátria de chuteiras é apenas isso, nosso time de futebol e não o próprio país. A pátria é muito maior que isso, é de todos os brasileiros e está acima de ideologias de direita ou de esquerda.
O sentimento de orgulho deve ser baseado em trabalho sério, constante, ou não terá terreno firme no qual se apoiar e não será permanente como formador de nossa identidade.
Numa escola, não devemos glorificar a sorte ou a esperteza, embora ambas façam parte da rotina no dia a dia, é o estudo e a dedicação que trarão o país em que todos merecemos viver.
Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil