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“Evangelizou” o futebol nos EUA. Criou clubes, ligas, revistas e recrutou “craques” da Europa. Entrou para o Hall of Fame do Soccer. Francisco Marcos vai no 15º Mundial e vê um “problema” com Ronaldo.

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Nos Estados Unidos da América, para se perceber a origem do soccer, é preciso falar de Francisco Marcos. É um português nascido e criado no Bombarral, que emigrou na adolescência para Nova Iorque. Na faculdade, iniciou uma espécie de programa Erasmus dedicado ao futebol. Fundou clubes, criou ligas, criou revistas de futebol, teve programas de rádio, crônicas em jornais, fez e faz parte da Federação de Futebol Norte-Americana e foi pai da estrutura competitiva que suporta, ainda hoje, a MLS, a primeira liga de futebol nos Estados Unidos. Em 2024, Francisco foi eleito para o National Soccer Hall of Fame. É o mais prestigiado prêmio ligado ao futebol nos Estados Unidos da América. Francisco é também um fanático pela seleção nacional e pelo Sporting. Vai a todos os jogos. Este homem, agora com 80 anos, tem também no currículo a presença em 15 mundiais. Foi a todos desde 1970. "O Observador" conversou com Francisco Marcos em Houston, no lobby do Hotel Cambria, depois do jogo de Portugal com o Congo. É uma longa entrevista que termina com conselhos para Roberto Martínez, Pedro Proença e Cristiano Ronaldo e que começa com a viagem para a América.

Realmente, sim, um típico imigrante. Vim para aqui antes de fazer 16 anos, dois anos depois do meu pai ter emigrado e, consequentemente, depois de o meu pai vir, deu uma opção a mim de ficar em Portugal na escola, onde eu estava no quinto ano, ou vir para os Estados Unidos. Não houve muito problema em decidir naquele tempo. Ora ficar com meus avós e ficar internado num colégio em Tomar, a escolha foi óbvia e vim para aqui.

Sim. No concelho, nasci numa aldeia ali ao pé, Valcovo, mas Valcovo, Bombarral. E lá vivi até aos 16 anos.

Como é que foi crescer no Bombarral nesse período de Portugal, anos 50, 60? Como é que era a vida nessa altura e por que os seus pais emigraram inicialmente?

O meu pai, como o resto dos imigrantes, emigrou para tornar a sua vida melhor. Não éramos pobres, não posso dizer isso. O meu pai era lavrador, tinha vinhas, tinha gado, mas tinha feito alguns investimentos em terrenos e decidiu que ele queria pagar esses terrenos o mais rapidamente possível para estar completamente livre. Então, em vez de ser o típico imigrante que vem para os Estados Unidos e fica toda a vida. O meu pai só esteve cá 13 anos, que não é o normal de um imigrante. Dois anos depois eu vim e o meu pai voltou e eventualmente eu fiquei assim que me formei da universidade. A minha vida, eu sabia que ia ser nos Estados Unidos pelo menos em termos profissionais.

Quando veio para os Estados Unidos, veio ainda para estudar.

Sim, a opção foi só essa. Não vim cá para ir, como nós dizíamos antes, para o pai picareta. Vim em dezembro de 1961, em janeiro entrei logo no segundo semestre do liceu em Nova Iorque. Vivi no Village, no bairro mais típico de Nova Iorque, onde naquela altura, estamos a falar dos anos 60, todos os grandes artistas atuavam ali. Fui exposto a muita coisa boa e má. Felizmente, consegui manter-me no outro lado, do lado bom.

Quando estava a dizer isso, estamos a falar do quê?

Estamos a falar do Greenwich Village, em Nova Iorque. É o centro da boêmia americana, pelo menos era nos anos 60. Portanto, aprendi muito, vi muita coisa, mas consegui realmente manter-me são durante todo esse tempo.

Ainda sobre isso, houve um choque de um jovem ainda em tenra idade sair de Portugal, do Bombarral, para Nova Iorque?

Sim, houve porque, por exemplo, eu com 15 anos tinha feito o segundo ano do liceu em Leiria, capital do distrito. Tinha feito a quarta classe. A primeira e única vez que tinha ido a Lisboa para fazer o exame de admissão ao liceu, depois da quarta classe, no Liceu Luís de Camões. E, portanto, o primeiro avião que eu vi ao vivo foi aquele que eu voei de Lisboa para Nova Iorque, um Clipper da Pan Am. Tudo isso foram novidades. Portanto, chegar a Nova Iorque e comparar. Nem deu para comparar com Lisboa, porque eu praticamente nem sequer conhecia Lisboa.

Chegou aos Estados Unidos, foi estudar, acabou os estudos em Nova Iorque e depois foi sair de Nova Iorque.

Sim, a saída de Nova Iorque coincidiu com um elemento de sorte, neste caso, porque eu estava a jogar em Nova Iorque na equipa do Clube Português de Nova Iorque, o clube social. Praticamente todos os clubes de imigrantes têm equipas de futebol. Ao mesmo tempo, jogava na equipa do liceu. A minha primeira equipa oficial de futebol foi mesmo o Liceu de Nova Iorque, onde joguei durante dois anos.

A médio e defesa central. Embora eu tinha querido ser guarda-redes pela influência do Carlos Gomes, mas como usava óculos, já cheguei a um ponto em que não dava para partir óculos todos os dias. Através dessa liga, onde o clube português jogava, liga amadora, jogavam aos domingos, houve a oportunidade proporcionada pelo presidente dessa liga me apresentar ao treinador da universidade para onde eu iria frequentar. Através de uma pequena conversa, se há algum clube que tem jogadores juniores de menos de 18 anos que estão interessados em ir para a universidade Uma das universidades em Nova Iorque. Falem comigo que eu posso pô-los em contato com o treinador, que é um amigo meu, etc. Isso aconteceu. Resumindo, duas semanas depois, tinha sido admitido nessa universidade com bolsa de estudo, que obviamente foi um salto enorme pra mim.

Sim, foi um jackpot, exatamente. Pouparam logo $1.200 de propinas, mas nesse tempo era muito dinheiro. Custava $2.100 por ano, entre propinas e depois dormitório e comida, e eu tive que arranjar maneira de safar para pagar dormitório e a comida, mas as propinas, que era realmente o ponto mais importante, $1.200 recebi como bolsa de estudo para jogar futebol. E aí começou tudo. O sonho americano começou mesmo aí, porque na universidade eu fiz de tudo e mais alguma coisa. Obviamente, fui para lá como estudante, mas a pouco e pouco fui avançando noutras coisas. Jogando futebol, obviamente. Quando cheguei ao terceiro ano da universidade, fui nomeado diretor do jornal universitário. Escrevia artigos, fazia artigos jornalísticos, escrevia artigos, escrevia colunas.

Tinha uma coluna sobre tudo aquilo que eu quisesse escrever. Escrevia sobre futebol também, porque era aquilo que eu melhor conhecia e que provavelmente sabia melhor que todos os outros. Mas era mesmo o editor do jornal. Era um jornal semanário, que acabou por ser nomeado o melhor jornal universitário nos Estados Unidos, em universidades com menos de 4 mil estudantes. Vamos lá dizer que era uma segunda divisão do prêmio. As grandes universidades tinham jornais diários mesmo e as mais pequenas tinham semanários. E isso foi importantíssimo pra minha carreira, porque não só estava eu a jogar futebol, mas ao mesmo tempo entrei no mundo da mídia. Eventualmente, entrei como correspondente para o Diário da Cidade, para escrever futebol.

Diário da Cidade, estamos a falar da cidade onde era a universidade?