Francisco Marcos foi jogador, treinador, agente e dirigente. O português, que está no Hall of Fame, mudou o futebol nos EUA e já foi a 15 Mundiais. Entrevista do Observador em Houston.

Para compreender a origem e o crescimento do soccer nos Estados Unidos, é obrigatório passar pelo nome de Francisco Marcos. Nascido em 1945, natural de Vale Covo, no Bombarral, este imigrante que chegou a Nova Iorque pouco antes de completar 16 anos transformou uma paixão pelo desporto numa carreira de quase seis décadas. Francisco não foi apenas um espectador da evolução do soccer; ele foi um dos seus arquitetos. Jogou, treinou, criou clubes, fundou ligas, foi agente, embaixador, dirigente. Trata o futebol por tu. Fundou a United Soccer Leagues (USL), criou a revista oficial da Federação norte-americana de futebol – a Soccer Monthly – e desempenhou um papel crucial na transição para o futebol profissional. O legado de Francisco Marcos levou-o em 2024 ao National Soccer Hall of Fame, o patamar mais alto de reconhecimento do futebol norte-americano.

Francisco Marcos é também um adepto fervoroso. Divide a lealdade entre o Sporting e a Seleção Nacional. No currículo conta com um feito raríssimo: a presença em 15 Mundiais de futebol consecutivos, uma jornada que começou em 1970 com uma viagem de carro desde Nova Iorque até à Cidade do México. Hoje, continua a acompanhar Portugal em todos os palcos e analisa o Mundial 2026 com o rigor de quem viu o desporto passar de uma curiosidade amadora a um negócio de milhares de milhões de dólares.

Nesta entrevista ao Observador, no Hotel Cambria, em Houston, Francisco Marcos analisa o empate entre Portugal e a RD Congo, partilha reflexões sobre a atualidade da equipa portuguesa, fala do trabalho de Roberto Martínez e do futuro de Cristiano Ronaldo — que devia ter saído ao intervalo do jogo com a RD Congo, diz, mas que coloca no mesmo patamar histórico de Vasco da Gama e Eusébio. Esta é uma conversa que atravessa gerações, desde a partida do Bombarral nos anos 60 rumo ao “sonho americano” construído em torno do futebol.

Francisco Marcos, um hall of famer do soccer. Uma vida dedicada ao futebol mais de seis décadas. Mas tudo começou como uma vida de imigrante. Explique-nos como é que começou esta aventura nos Estados Unidos da América?
Um típico imigrante. Vim para aqui antes de fazer 16 anos, dois anos depois de o meu pai ter emigrado e consequentemente depois do meu pai vir, deu-me opção a mim de ficar em Portugal na escola, uma vez que estava no quinto ano, ou vir para os Estados Unidos. Não houve muito problema em decidir a decisão naquele tempo, não é? Entre ficar com os meus avós ou ficar internado num colégio em Tomar. A escolha foi óbvia e vim para aqui.

Nasceu no Bombarral, certo?
Sim, sim. No concelho, nasci numa aldeia ali, em Vale Covo. E lá vivi até aos 16 anos.

Como é que foi crescer nesse época no Bombarral? Anos 50, 60… Como era a vida nessa altura e porque é que os seus pais emigraram inicialmente?
O meu pai, como muitos imigrantes, emigrou para tornar a sua vida melhor. Não éramos pobres, não posso dizer isso. O meu pai era lavrador, tinha vinhas, tinha gado, mas tinha feito alguns investimentos em terrenos e queria pagar esses terrenos o mais rapidamente possível para estar completamente livre. Então, em vez de ser o típico imigrante que vem para os Estados Unidos e fica toda a vida, o meu pai só esteve cá 13 anos, que não é o normal  num imigrante. Dois anos depois de ele vir, vim eu. O meu pai acabou por voltar a Portugal e eu obviamente fiquei nos EUA assim que me formei na universidade. A minha vida, eu sabia que ia ser nos Estados Unidos.

Quando veio para os Estados Unidos, veio ainda para estudar?
Sim, sim. A opção era só essa. Vim em dezembro de 1961. Em janeiro, entrei logo no segundo semestre do liceu em Nova Iorque, na cidade de Nova Iorque. Vivi no Village, no bairro mais típico de Nova Iorque, naquela altura todos os grandes artistas atuavam ali. Fui exposto a muita coisa, boa e má. Felizmente consegui manter-me no outro lado, do lado bom.

Como por exemplo? Está a falar do quê?
Estamos a falar do Greenwich Village em Nova Iorque. É o centro da boémia americana. Pelo menos era nos anos 60. Todos os grandes artistas da música que podíamos conhecer desse tempo atuavam ali nos cafés do Greenwich Village. A mesma coisa que em Paris no Left Bank [margem esquerda do Sena], por exemplo. Portanto aprendi muito, vi muita coisa, mas consegui manter-me são durante todo esse tempo. Esive lá dois anos, acabei o liceu e depois disso já sabia — já tinha o suficiente de Nova Iorque para saber que não queria ficar em Nova Iorque. Não era a minha praia.

Houve um choque quando saiu de Portugal? Do Bombarral para Nova Iorque nos anos 60…
Claro. Por exemplo, eu com 15 anos tinha feito o segundo ano do liceu em Leiria, capital do distrito. A primeira e única vez que tinha ido a Lisboa foi fazer o exame de admissão ao liceu depois da quarta classe. Portanto o primeiro avião que eu vi ao vivo foi aquele em que eu voei de Lisboa para Nova Iorque, um clipper da Pan Am. Tudo isso foram novidades. Portanto ao chegar a Nova Iorque nem deu para comparar com Lisboa, porque eu praticamente nem sequer conhecia Lisboa. Fui só à embaixada americana, tratar de papelada.

O mais perto de cidade que conhecia era Leiria?
Leiria, sim. Para não falar de Caldas da Rainha e Torres Vedras. Curiosamente, ligando isso ao futebol, toda a gente que me conhece sabe que eu sou um fervoroso adepto do Sporting. Mas, curiosamente, se tivesse seguido a rota normal, o único e primeiro jogo de futebol profissional que eu vi em Portugal antes de ir para os Estados Unidos foi em setembro de 1961 em Lisboa. Benfica-Penharol. 1 a 0 para a Taça Intercontinental. E o Benfica depois acabaria por perder no segundo e terceiro jogo em Montevidéu. E um amigo meu que estava a ajudar a tratar da papelada para vir para os Estados Unidos era adepto do Benfica e levou-me ao jogo. Normalmente ficaria apanhado, mas eu já tinha 15 anos, já tinha sete, oito anos de Sporting. Idolatrava o Carlos Gomes, guarda-redes. O José Travasso, José da Europa. E portanto tinha um primo que também tinha alguma influência sobre mim, não muita, mas alguma. E portanto o bichinho do leão já lá estava, embora só tenha visto o Sporting jogar pela primeira vez quando vim a Portugal pela primeira vez depois de ter emigrado.

Chegou aos Estados Unidos, foi estudar, acabou os estudos em Nova Iorque e depois deixou Nova Iorque.
Sim. A saída de Nova Iorque coincidiu com um elemento de sorte, porque eu estava a jogar em Nova Iorque, na equipa do clube português de Nova Iorque, o clube social. Praticamente todos os clubes de imigrantes têm equipas de futebol. Coisa amadora. Ao mesmo tempo, jogava na equipa do liceu. A minha primeira equipa oficial de futebol foi mesmo o Liceu de Nova Iorque, onde joguei durante dois anos

Jogava a que posição?
Jogava naquele tempo a médio e defesa central. Embora tenha querido ser guarda-redes pela influência do Carlos Gomes, mas, como já usava óculos, cheguei a um ponto em que não dava para partir óculos todos os dias, não é? Portanto, desisti disso. Entretanto, para não estar a elaborar detalhadamente sobre isso, através dessa liga, onde o clube português jogava, liga amadora, com jogos aos domingos, houve a oportunidade proporcionada pelo presidente dessa liga de me apresentar ao treinador da Universidade que eu iria frequentar, através de uma pequena conversa. Ele pergunta numa reunião: “Há aí algum clube que tenha jogadores juniores, com menos de 18 anos, que estão interessados em ir para a Universidade, uma das Universidades em Nova Iorque? Se sim, falem comigo, eu posso pô-los em contato com o treinador, que é um amigo meu, etc, etc”. Isso aconteceu e resumindo, duas semanas depois tinha sido admitido nessa Universidade com bolsa de estudo, que obviamente foi um um salto enorme para mim.

É um jackpot.
Exato. Exatamente. Pagou-me logo 1.200 dólares de propinas numa Universidade privada no norte de Nova Iorque. Nesse tempo, era muito dinheiro. Custava 2.100 dólares por ano, entre propinas e depois dormitório e comida. E eu tive que arranjar maneira de safar para pagar o dormitório e a comida, mas as propinas, que era realmente o ponto mais importante, 1.200 dólares, recebi como bolsa de estudo para jogar futebol e aí começou tudo. A jogar futebol numa Universidade que não é propriamente conhecida, porque é uma Universidade pequena, privada, mas que nesses anos, anos 60 e 70, chegou a ganhar o campeonato nacional da primeira divisão universitária contra os grandes gigantes do desporto universitário americano. Nomes que toda a gente reconhece e nunca reconheceria o nome da minha Universidade que é o Hartwick College. Uma pequena escola com 1.500 estudantes, numa cidade de 15 mil habitantes, a quatro horas no norte do Estado da cidade de Nova Iorque. E, para mim, realmente o sonho americano começou mesmo aí, porque na Universidade eu fiz de tudo e mais alguma coisa. Obviamente fui para lá como estudante, mas a pouco e pouco fui avançando noutras coisas, jogando futebol, obviamente, mas quando cheguei ao terceiro ano da Universidade, fui nomeado diretor do jornal universitário.

Escrevia artigos? Escrevia colunas? Escrevia sobre o quê?
Ttinha uma coluna sobre tudo aquilo que eu quisesse escrever. Depois escrevia sobre futebol também, porque era aquilo que que eu melhor conhecia e que provavelmente sabia melhor comparando com todos os outros, mas eu era mesmo o editor do jornal. Era um jornal semanário que acabou por ser nomeado o melhor jornal universitário nos Estados Unidos em Universidades com menos de quatro mil estudantes. Vamos dizer que era uma segunda divisão do prémio. As grandes Universidades tinham jornais diários e as mais pequenas tinham semanários. E isso foi importantíssimo para a minha carreira. Porque não só estava a jogar futebol, mas ao mesmo tempo entrei no mundo dos media. E eu tinha tido, obviamente aqui em Portugal, três anos de latim, tinha tido francês, tinha tido inglês, estava a começar grego e alemão. Eu em seis meses dominava o inglês completamente. Não tive problema nenhum. Estou a falar de escrever crónicas todas as semanas. Portanto entrei nessa situação. Eventualmente acabei por entrar também como correspondente para o jornal diário da cidade, para escrever sobre futebol.

Diário da cidade? Estamos a falar de que cidade?
Oneonta, uma cidade a 200 milhas de Nova Iorque. A norte. Também entrei na rádio local, entrei na televisão a cabo local com um show de futebol que eu criei. Porque eu sempre fui muito agressivo em tudo isso.

Foi convidado ou era você que propunha fazer isso?
Sim e sim. As duas coisas. Eu inicialmente queria ir para as Nações Unidas para começar como tradutor e eventualmente ir a vários pontos do mundo. Entretanto, o futebol misturou-se nesta coisa toda.

O que estava a estudar na Universidade?
Ciência política e línguas. Outro fator muito importante que aconteceu no último ano da Universidade, no quarto ano, na Páscoa de 1968, a nossa Universidade foi a primeira a ser convidada por um órgão das Nações Unidas a fazer uma excursão à Europa. Programas interuniversitários. Isso aconteceu um bocadinho por acidente, mas aconteceu.

Mas foi enquanto estudante ou enquanto futebolista da Universidade?
Futebolista. Foi a equipa da Universidade. Na Páscoa de 1968, 3 meses antes de eu me formar, de receber o meu diploma universitário. A equipa universitária embarcou numa viagem de 17 dias a Inglaterra, à Dinamarca, à Alemanha, à Alemanha Oriental, especificamente Berlim Leste, e fizemos 14 jogos em 17 dias. Como tínhamos a equipa completa de 22 ou 23 jogadores, podíamos jogar quase todos os dias e mudar os 11 jogadores. Isso foi uma experiência incrível. Primeira vez que eu voltei à Europa, sete anos depois de ter deixado Portugal. E eu que já era louco pelo futebol através do meu conhecimento dos media… O primeiro jogo que vi na Europa, Liverpool-Burnley, na FA Cup, em Anfield. Bill Shankley era o treinador. Grandes craques que o Liverpool tinha nesse ano, posso estar aqui a nomear nomes que as pessoas não conhecem. Roger Hunt, Tommy Lawrence, Tommy Smith, etc. Essa viagem marcou-me de tal maneira que, durante o período da viagem, fui recolhendo nomes e contactos e telefones das pessoas que conhecemos. Porque fizemos jogos, fizemos clínicas, deram-nos clínicas em Manchester, em Liverpool, etc. Nessa viagem de 14 jogos, ganhamos sete, perdemos seis e empatamos um. Um dos jogos, curiosamente, foi contra os reservas do Ajax no velho estádio. Quem é que estava no outro lado a jogar pelas reservas do Ajax? Um tal senhor chamado Johan.

Só? Só ganharam 1-0 com o Francisco a jogar a médio? A marcar o Johan Cruyff?
Não! Pá, era difícil. Mas esse evento provavelmente mais que qualquer outro ligou-me completamente ao futebol internacional. Eu já seguia na medida do possível. Sem televisão, sem telefone, nada dessas coisas assim. De vez em quando lia uma revista, de vez em quando ouvia um um relato por ondas curtas no rádio de alguém para manter-me em contacto com Portugal, especificamente notícias do Sporting. Depois de voltar dessa viagem, dois meses e meio depois formei-me e decidi naquele momento, durante essa viagem, “é isto que eu vou fazer”. Vou organizar excursões da Europa para Universidades e liceus americanos para ensinar aos americanos o que é o futebol internacional